A pelada (uma lembrança do Puta Dei, em Niterói)

A caminhada das prostitutas de Niterói, do famoso “prédio da Caixa” até a Câmara Municipal, em uma ensolarada manhã de sábado, foi mais um episódio alegre promovido por essas mulheres, em suas manifestações contra o controle policial, nas ruas do centro da cidade. Há maneira mais genial e vibrante de iluminar no espaço público uma denúncia? Há maneiras e maneiras de mostrar, apontar, denunciar, criticar, exibir, pautar. Assim como há futebol e futebol. “Vai ter pelada”, lema Daspu para a Copa do Mundo Fifa Brasil 2014, sintetizando brilhantemente o que Chico Buarque descreveu no texto abaixo.

Pelada Puta Dei, 31 de maio 2014, Niterói.  Foto Soraya S. Simões

Pelada Puta Dei, 31 de maio 2014, Niterói.
Foto Soraya S. Simões

O moleque e a bolaChico Buarque (21 junho 1998)

Livremente inspirada no football association, a pelada é a matriz do futebol sul-americano e, hoje em dia mais nitidamente, do africano. É praticada, como se sabe, por moleques de pés descalços no meio da rua, em pirambeira, na linha de trem, dentro do ônibus, no mangue, na areia fofa, em qualquer terreno pouco confiável. Em suma, pelada é uma espécie de futebol que se joga apesar do chão. Nesse esporte descampado todas as linhas são imaginárias – ou flutuantes, como a linha da água no futebol de praia – e o próprio gol é coisa abstrata. O que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola, e por bola pode se entender um coco, uma laranja ou um ovo, pois já vi fazerem embaixada com ovo. Daí, quando o moleque encara uma bola de couro, mata a redonda no peito e faz a embaixada com um pé nas costas. E quando ele corre de testa erguida no gramado liso feito um mármore, com a passada de quem salta poças por instinto, é uma elegância. Mas se a bola de futebol pode ser considerada a sublimação do coco, ou a reabilitação do ovo, ou uma laranja em êxtase, para o peladeiro o campo oficial às vezes não passa de um retângulo chato. Por isso mesmo, nas horas de folga, nossos profissionais correm atrás dos rachas e do futevôlei, como o Garrincha largava as chuteiras no Maracanã para bater bola em Pau Grande. É a bola e o moleque, o moleque e a bola.

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